terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Outras atividades...
Cartazes e trabalhos produzidos pelo grupo Ped-Afro e por professores da escola.

Cartazes desenvolvidos por professora.






Cartazes desenvolvidos pela equipe Ped-Afro. 




Mural desenvolvido por professores e alunos.


segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Peleja de improviso durante as nossas oficinas na semana da consciência negra!!!
Para as atividades foram trabalhados alguns poemas, que depois ajudaram a compor o mural...

Heraclitiano (Carlos Machado)


                              Carlos Machado

Na segunda chicotada
Você já é outro

-não importa o lado do chicote.   

Ferro (Cuti)

Cuti
     
Primeiro o ferro marca
a violência nas costas
Depois o ferro alisa
 a vergonha nos cabelos
Na verdade o que se precisa
é jogar o ferro fora
é quebrar todos os elos
dessa corrente
de desesperos

  Eu, pássaro preto (Adão Ventura)

               Adão Ventura

eu,
pássaro preto,
cicatrizo
queimaduras de ferro em brasa,
fecho corpo de escravo fugido
e
monto guarda
na porta dos quilombos. 

Diariamente (José Carlos Limeira)

José Carlos Limeira
     

A mim me basta o espelho
a casa azul
o papel, o lápis
e essa coragem
de sair todos os dias de manhã
encontrar as mesmas pessoas
os mesmos sobressaltos
o relógio de ponto
o telefone os documentos.

A mim basta
essa coragem teimosa
de engolir teimosia
de engolir o café das nove de fumar o quinto cigarro
com a mesma determinação
de destruir
o que resta dos pulmões.

Me basta mesmo essa coragem quase suicida
de erguer a cabeça
e ser um negro
vinte e quatro horas por dia.

Eu quero maracatucar (Solano Trindade)

                          Solano Trindade

Ao Pedro de Assis
(Musicado pó Vitor Trindade)

Quero num maracatu gemer
O meu sofrer secular
É um lamento bonito
Que vai ao infinito
Ao Calunga
De Yemanjá...

Eu não quero envelhecer
Eu não quero escravidão
Eu quero juventude e liberdade
Eu quero maracatucar

Gota Do Que Não Se Esgota (Cuti)
                                
Cota é só a gota
A derramar o copo
Não a mágoa do corpo
Mas energia represada
Que agora se permite e voa
Em secular esforço
De superar-se coisa e se fazer pessoa

Cota é só a gota
A explodir o espanto
De se enxugar no riso
A imensidão do pranto
Ela é só a gota
Ruindo pela base
A torre de narciso

É só a gota
Entusiasmo na rota
Afirmativa
Que ameniza as dores da saga
Suas chagas de desigualdade amarga

Para um negro (Adão Ventura)

para um negro
a cor da pele
é uma sombra
muitas vezes mais forte
que um soco.

Para um negro
a cor da pele
é uma faca
      que atinge
muito mais em cheio
      o coração.

Sanga (Cuti)
      
Neurônios adentro
vão-se as palavras tecendo a vida e a morte

Alaga-se o espelho de riso e lágrima
onde a escuridão celebra o mistério e a bonança

o sol nada com sua avidez de sombra
até que docemente ungido
se permite o orgasmo e alcança
a noite pelo seu íntimo

untados os raios com abissais carícias
de bronzeada a luz enegrece
transformada em toque e delícia
por entre as pedras
abrindo atalhos e sendas.

Sou negro (Solano Trindade)

À Dione Silva              

Sou negro
Meus avós foram queimados
Pelo sol da África
Minh’alma recebeu o batismo dos tambores
Atabaques, gonguês e agogôs.

Contaram-se que meus avós
Vieram de loanda

Como mercadoria de baixo preço
Plantaram cana pro senhor do engenho novo
E fundaram o primeiro Maracatu.

Depois meu avô brigou como um danado
Nas terras de Zumbi
Era valente como quê
Na capoeira ou na faca
Escreveu não leu
O pau comeu
Não foi um pai João
Humilde e manso

Mesmo vovó
Não foi de brincadeira
Na guerra dos Malés
Ela se destacou.

Na minh’alma ficou
O samba
O batuque
O bamboleio
E o desejo de libertação.

Vozes-mulheres ( Conceição Evaristo)

Conceição Evaristo

A voz de minha avó ecoou
criança
nos porões do navio.
Ecoou lamentos
de uma infância perdida.
A voz de minha avó
ecoou obediência aos brancos-donos  de tudo.
A voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
no fundo das cozinhas alheias
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado
rumo à favela.
A minha voz ainda
ecoa versos perplexos
com rimas de sangue
 e
 fome.
A voz de minha filha
recorre em si
as vozes mudas caladas
engasgadas nas gargantas.
A voz da minha filha
recolhe em si

a fala e o ato.
O ontem – o hoje – o agora.
Na voz da minha filha
se fará ouvir a ressonância
o eco da vida-liberdade.

Zumbi ( Solano Trindade)
                             
(Da peca Malungos, musicado
Em 1996 por Vitor Trindade)

Zumbi morreu na guerra
Eterno ele será
Rei justo e companheiro
Morreu pra libertar
Zumbi morreu pra librtar
Zumbi morreu na guerra
Eterno ele será
Se negro está lutando
Zumbi presente está
Herói cheio de glórias
Eterno ele será
À sombra da gameleira
A mais frondosa que há
Seus olhos hoje são lua,
Sol, estrelas e brilhar
Seus braços são troncos de árvores
Sua fala é vento, é chuva
É trovão, é rio, é mar.



Tristes maracatus ( Solano Trindade)

Baticuns maracaturando
na minh´alma de moleque
Buneca negra na minha meninice
de “negro preto” de São José
Nas águas de calunga
a Kambinda me inspirando amor
O primeiro cafuné no mato verde
Da campina do Bodé
Rum de amor de negra
Rumpi de desejo de mulata
Lê de realização cafusa
Sons de protestos
Num mundo de guerra
E de ódio
Criação de Olodum
O mais tolerante dos deuses
O mais pacífico
Dos criadores
O mais estético
Dos chefes de raça
Tristes maracatus
Em maracatus alegres
Que se vão distantes
Em ritmo calmo de gongo
Em acelerado moçambique
Em toque de Kêto
De Jejê e de Angola
Maracatus meus...
  

Tem gente morrendo, Ana ( Solano Trindade)

Tem gente morrendo
No seco Nordeste
Tem gente morrendo
Nas secas estradas
Tem gente morrendo
De fome e de sede
Tem gente morrendo
Ana
Tem gente morrendo
Tem gente morrendo
Nos campos de guerra
Tem gente morrendo
Nos campos de paz
Tem gente morrendo
De escravidão
Tem gente morrendo
Ana
Tem gente morrendo
Tem gente morrendo
De angustia e de medo
Tem gente morrendo
De falta de amor
Tem gente morrendo
De ódio e de dor
Tem gente morrendo
Ana
Tem gente morrendo
Nas prisões infectas
Tem gente morrendo
Porque quer trabalho
 Tem gente morrendo
Pedindo Justiça
Tem gente morrendo
Ana
Tem gente morrendo
Sim Ana,
Tem gente morrendo...

Reencarnação ( Solano Trindade)
Eu nasci
No inicio do século
(Revolção operária)
Nasci no Bairro de São José
Recife Pernambuco Brasil
d. Miaela
Foi a parteira que me pegou
E anunciou o meu Sexo
Homem!
A minha mãe
Foi operária cigarreira
Da Fábrica Caxias
Nascida de índio
E africano
Meu pai
Foi sapateiro
Especialista em Luis XV
Nasceu de branco e africano
Sabia falar em nagô
Meu pai era preto
Minha mãe era preta
Todos em casa são pretos
Minha mãe não sabia ler
E meu pai era semianalfabetizado
Minha mãe sabia rezar
Meu pai sabia rezar
Meu pai depois foi macumbeiro
(Macumbeiro é um espírita de cor preta)
Branco espírita é espiritualista
Que fica esperando a reencarnação
Na luta por nada
Não quer revolução
Nem por evolução
Não quer ação
Quer reencarnar
Na outra vida
Quer reencarnar diferente
Se for Mulher
Quer voltar homem
Se for homem
Quer voltar mulher
Se for empregado
Quer voltar patrão
Quer reencarar
Para se acomodar...
Intelectual se acomoda sem reencarnar
É mais fácil
Depende do emprego que arranjar...


O canto da liberdade (Solano Trindade)

Ouço um canto novo,
Que sai da boca,
De todas as raças,
Com infinidade de ritmos...
Canto que Faz dançar,
Todos os Corpos
De formas,
E coloridos diferentes,
Canto que faz vibrar,
Todas as almas,
De crenças,
E idealismos desiguais...
É o canto da liberdade
Que está penetrando,
Em todos os ouvidos...


Macumba (Solano Trindade)

Noite de Yemanjá
negro come acaçá
noite de Yemanjá
filha de Nanan
negro come acaçá
veste seu branco abedé
Toca o aguê
o caxixi
o agogô
O engona
o gã
o ilu
o lê
o roncó
o rum
o rumpi
Negro pula
negro dança
negro bebe
negro canta
negro vadia
noite e dia
sem parar
pro corpo de Yemanjá
pros cabelos de Obá
do Calunga
do mar
Cambondo sua
mas não cansa
cambondo geme
mas não chora
cambondo geme
mas não chora
cambondo toca
até o dia amanhecer
Mulata cai no santo
corpo fica belo
mulata cai no santo
seus peitos ficam bonitos
Eu fico com vontade de amar...


Deformação (Solano Trindade)

Procurei no terreiro
Os Santos D´África
E não encontrei,
Só vi santos brancos
Me admirei...
Que fizeste dos teus santos
Dos teus pretinhos?
Ao negro perguntei.
Ele me respondeu:
Meus pretinhos se acabaram,
Agora,
Oxum, Yemanjá, Ogum,
É São Jorge,
São João,
E Nossa Senhora da Conceição.
Basta Negro!
Basta de deformação!